Na clássica tragédia shakespeariana, o Rei Claudius não só assassinou o próprio irmão, Hamlet, por conta de inveja e para poder ascender ao trono como também se apossou da esposa dele. Na mitologia sobre o surgimento de Roma, Rômulo matou o irmão, Remo, após uma briga mesquinha por ambição assim que ficou claro que um não confiava mais no outro.

Algo parecido a esses dois exemplos aconteceu na cidade de Herzogenaurach, na Alemanha, conhecida não somente por ser a sede da Adidas e da Puma, duas das maiores multinacionais do ramo esportivo, mas também pela rivalidade marcada pelo ódio entre os dois irmãos que fundaram as companhias.

Os irmãos Dassler


Vindos de uma família de classe média, em 1919 Adolf e Rudolf Dassler começaram a fazer sapatos na lavandeira da casa em que moravam. Adolf era conhecido por ser a mente criativa do empreendimento, responsável por desenhar os modelos, e ficava a cargo de Rudolf vendê-los pelo melhor preço possível com estratégias de propaganda e os poucos recursos que tinham na época.

Em meados de 1924, eles já eram os Irmãos Dassler, e por muito tempo foram os únicos em toda a Alemanha a produzir calçados esportivos. Eles levaram o negócio para um pequeno galpão e contaram, à princípio, com 12 funcionários para fazer o maquinário acontecer.

Por volta de 1933, com a ascensão de Hitler ao poder, os irmãos se afiliaram ao Partido Nazista por questões econômicas, visto que era mais favorável que eles fornecessem sapatos para os clubes da Juventude Hitlerista do que se voltassem contra o regime. Os calçados foram os oficiais das equipes alemãs nos Jogos Olímpicos de Verão de 1936, em Berlim. Contudo, Rudolf era o conhecido por ser um defensor assíduo do nacional-socialismo, enquanto Adolf seguia fingindo concordar com as convicções fascistas.

Acredita-se que essa lacuna ideológica tenha sido um dos principais motivos para aumentar a discordância entre os irmãos. O trabalho seguiu sob uma crescente animosidade e brigas constantes entre os dois. Durante a guerra, Rudolf permitiu que a fábrica fosse convertida em uma linha de produção de equipamento militar para os nazistas. Foi o começo do fim.

A gênese do ódio


Com o fim da guerra, o processo norte-americano de desnazificação ("limpeza" da sociedade de qualquer influência nazista) afetou diretamente a empresa dos Dasslers, com a perseguição aos donos para identificar os vínculos que tinham com o alto escalão do Partido.

Rudolf foi interrogado, porém a investigação sobre o seu envolvimento não levou a lugar algum, muito embora ele fosse membro da cúpula hitlerista. Adolf, no entanto, foi declarado um Belasteter (categoria atribuída a quem se beneficiou com o regime nazista), a segunda ofensa mais grave em um julgamento. Sendo assim, foi sentenciado a 10 anos. Contudo, como o prefeito de Herzogenaurach, um Aliado de confiança, testemunhou a favor dele, a pena foi reduzida para 2 anos a 3 anos de reclusão.

Ambicioso e oportunista, Rudolf, visando se aproveitar do controle total que teria dos negócios, tentou incriminar o irmão apresentando uma declaração em que constava que ele tinha organizado a produção de armamento para lucro próprio. Isso foi provado inverídico com os registros da fábrica e as alegações de Kathe Dassler, esposa de Adolf.

Em 3 de fevereiro de 1947, o empresário pôde voltar ao trabalho, porém com supervisão do Conselho de Desnazificação. Até lá, o ódio mortal pelo irmão já havia se instaurado.

A guerra dos sapatos


O sentimento de hostilidade cresceu entre as famílias, com uma culpando a outra pelos problemas. Alguns boatos começaram a surgir, como o de que a mulher de Adolf estava tendo um caso com Rudolf, intensificando ainda mais a raiva existente.

O ano de 1948 foi marcado pela ruptura da sociedade milionária entre os irmãos. Adolf pegou a sua parte da empresa e se mudou para a região sul de Herzogenaurach para dar início à própria marca. Ele criou a Adidas com a junção de seu apelido, Adi, e o Das de seu sobrenome. Migrando para o norte da cidade, Rudolf seguiu os mesmos passos do irmão e transformou a fábrica em Ruda, junção das iniciais de seu nome, Ru, e do sobrenome, Da. Mais tarde, devido a mais conflitos, ele acabou mudando para Puma.

Os dois impérios que dominavam a indústria de calçados estabeleceram uma rivalidade que dividiu o panorama socioeconômico da cidade para sempre. Naquele tempo, pelo menos uma pessoa em cada família era empregada em uma das duas gigantes. Ao sul, a Adidas dominava, com a sua logo até nas pedras que compunham o calçamento. Ao norte acontecia a mesma coisa. Tornou-se proibido que qualquer cidadão do lado oposto cruzasse o território inimigo.

A cidade passou a ser regida pela lealdade das pessoas às empresas que as beneficiavam. Desse modo, era rigidamente proibido se casar com ou namorar alguém do lado oposto, assim como vestir ou usar qualquer acessório que não correspondesse. Muitos chegavam a olhar a marca dos sapatos dos outros antes de decidirem começar uma conversa. Nem as questões religiosas escapavam: Puma era detentora do catolicismo, assim como os habitantes da sua região, enquanto Adidas e seu território eram protestantes.

Os irmãos levaram o ódio para as sepulturas e foram enterrados em extremos opostos do cemitério da cidade. Apenas em 1990, com a retirada dos herdeiros de ambas as empresas, a influência delas diminuiu na cidade e a barreira foi diluída. No entanto, por questões diplomáticas, até hoje o prefeito veste ambas as marcas em eventos públicos.

Se a dupla tivesse aprendido a viver bem desde o começo, a fábrica dos Irmãos Dassler poderia ter superado a Nike como a principal empresa de calçados esportivos do mundo. Atualmente, porém, Adidas e Puma são a segunda e a terceira maiores do ramo, perdendo mais para a própria disputa amarga do que para a concorrente.